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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Servidão contratual


Eu fico impressionado com a visão presente em muitos materiais didáticos sobre a relação entre senhores feudais e os camponeses por ele dominados e explorados através do regime conhecido por servidão.

Por exemplo, na apostila para ensino fundamental do Sistema Positivo de Ensino, ao tratar da servidão, não é usada nenhuma vez a palavra exploração, o mesmo ocorrendo com a palavra dominação, ou qualquer outra similar. Pelo contrário, ao falar das obrigações servis, o texto da apostila diz o seguinte:

“Em troca das terras cedidas aos camponeses, eles deveriam trabalhar alguns dias por semana nas terras do senhor...” (p.28).

A idéia de fundo aqui é que a servidão é uma relação contratual voluntária entre senhores de terra e camponeses, com cada um tendo suas obrigações e seus benefícios na relação e todos sendo felizes para sempre.

Fica parecendo que o senhor Jesus Cristo passou a escritura das terras européias aos bons e nobres senhores feudais e que os camponeses, recém-chegados de Marte, ficavam muito felizes em receber uma porçãozinha de terra dos bons nobres, bondade esta retribuída com alguns favores bobinhos, que não custavam nada...

É uma distorção altamente ideológica, que, talvez inconscientemente, emula a idéia de que as relações entre classes dominantes e classes subalternas não são baseadas na dominação e na exploração, mas, sim, em relações de trocas de serviços benéficas para todas as partes.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O Wishful Thinking de Montenegro


A expressão Wishful Thinking se refere a um dos conceitos da teoria da tomada de decisões mais interessantes e facilmente identificáveis na realidade. Segundo a Wikipédia,

“Wishful thinking é uma expressão inglesa que por vezes se utiliza na língua portuguesa devido a ser de difícil tradução, e que significa tomar os desejos por realidades e tomar decisões, ou seguir raciocínios, baseados nesses desejos em vez de em fatos ou na racionalidade.”
“Muitos estudos provaram que, se todas as outras condições se mantiverem iguais, os sujeitos irão prever que os resultados positivos são mais prováveis do que os resultados negativos”

Pois é impossível não pensar em wishful thinking ao ver as declarações do presidente do IBOPE, Carlos Augusto Montenegro (mais conhecido pelo seu papel de cartola à frente do Botafogo).

Frente aos últimos números da pesquisa CNT/Sensus, que identificou grande crescimento das intenções de voto em Dilma Rousseff, Montenegro declarou ao blog de João Bosco Rabello e de Ricardo Kotscho (encontrei os dois posts a partir do blog Tijolaço, do Brizola Neto) que Roussef está próxima de atingir o teto de transferência de votos de Lula. Segundo Montenegro, a candidata petista seria responsável por apenas 2 pontos percentuais destes 30, sendo os 28 restantes debitáveis da transferência dos votos de Lula – e que isto seria um teto na possibilidade de transferência de votos.

De onde o presidente de um dos maiores e tradicionais institutos de pesquisa tira esses números? Do seu wishful thinking. Nada mais que isso. Montenegro tem um desejo: o PT não vencerá as eleições presidenciais. E quer transformar este desejo de qualquer forma eu um argumento, por mais que a realidade se negue a cooperar.

Vejam o seguinte: Montenegro afirmou em entrevista ao panfleto à revista Veja em setembro do ano passado (entrevista transcrita no blog Vi o Mundo) que Dilma havia atingido o teto de transferência de votos de Lula, algo entre 15 e 20% do eleitorado. Agora que Dilma reformou seu pé-direito e chegou aos 30%, Montenegro afirma que este é o teto.

Ok, ok, o teto poderia mudar com o tempo, as análises poderiam variar. Uma argumentação razoável poderia explicar tal variação. Porém, ao lermos a argumentação (sic) de Montenegro em setembro do ano passado para dizer que o teto de Dilma era 20% e lermos a argumentação (sic) para afirmar o mesmo dos atuais 30%, percebemos que o argumento é o mesmo! Sem trocar uma vírgula.

O argumento de Montenegro é minimamente coerente, apesar de eu achar que ele desconsidera pontos fundamentais e que também tem um pouco de wishful thinking misturado com uma cegueira para o “além–classe média”, mas o argumento se sustenta minimante, mesmo que não concordemos com ele.

Segundo Montenegro, a alta aprovação de Lula está descolada do PT, e a imagem deste está muito arranhada depois do episódio do mensalão. Desta maneira, quando a campanha colocar a questão de mais quatro anos de governo do PT (e não de Lula) ou uma alternativa para isto, as pessoas tenderão a não votar no candidato petista.

Como eu disse, não concordo com esse argumento, mas ele tem lá sua coerência interna. O problema (e que acaba com tal coerência) é derivar deste argumento que o teto de Dilma são os 20% que ela alcançou e, alguns meses depois, assistindo uma escalada das intenções de voto em Dilma, afirmar, a partir dos mesmos argumentos, que o teto de Dilma são os 30% recém-alcançados. Não faz qualquer sentido isso. É mero wishful thinking. Um wishful thinking tão frágil que o próprio Montenegro, na entrevista ao blog do Kotscho, encerra afirmando que uma vitória de Dilma não o surpreenderia (!!!).

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Barbara Gancia e Boris Casoy

Uma das coisas que eu mais gostava de assistir no BandSports eram os programas da Barbara Gancia. Figura extrovertida, meio bonachona, sempre me pareceu aquele tipo de gente boa praça de quem todos costumamos gostar.

Quando fiz minha conta no twitter, não demorou muito para achá-la e começar a segui-la. Bom, aí tive meus primeiros sustos com declarações politicamente reacionárias por parte dela. Lembro-me claramente de uma específica, porque tuitei uma crítica e ela, simpaticamente, me respondeu – no que se seguiu uma troca de mais uns dois ou três tweets cordiais, apesar do meu tom crítico inicial. O assunto era o golpe de estado no Haiti e seu tweet era alguma crítica jocosa a Zelaya e ao asilo dado pela embaixada do Brasil, salvo engano.

(por falar nisso, o melhor texto que li na blogosfera sobre o golpe em Honduras e a participação brasileira no desenrolar dos acontecimentos foi esse aqui, no Politika&etc.)

Esses dias, levado por link em algum blog, me deparei com um texto no blog dela falando sobre o caso Boris Casoy e garis. Não vou chegar aqui ao cúmulo de igualar a Bárbara a figuras ridículas da imprensa anaeróbica brasileira (Reinaldo Azevedo, Diego Mainardi...), como fez o Altamiro Borges. Ainda a acho uma figura simpática, até certo ponto moderada e que apenas acaba surfando ondas da direita esquizofrênica tupiniquim (o que eu acho uma pena).

Porém, o texto em defesa do Boris Casoy em seu blog é por sua vez indefensável. E nos revela certas coisas interessantes de se analisar, e por isso vou passá-lo em revista aqui.

O texto está estruturalmente divido em três argumentos independentes. Vou analisá-los, portanto, individualmente.

O primeiro argumento é bastante razoável. Ela compara o caso Casoy com o caso Ricupero (ministro do famoso “Eu não tenho escrúpulos, o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”, dito no intervalo do Jornal da Globo, mas captado por telespectadores com antenas parabólicas).

O cerne do argumento faz sentido: uma frase não condena necessariamente seu autor. No caso de Ricupero, por exemplo, ele poderia simplesmente estar fazendo uma piada, um gracejo qualquer. Mas esse argumento não livra a cara de Casoy, apenas destaca a necessidade de uma análise mais atenciosa do que foi dito e de seu contexto. Gancia, que não é boba, sabe disso e passa, então, a esta nova etapa da argumentação pró-Casoy. E é aí que vaca vai pro brejo.

O primeiro passo é contextualizar a frase. E aqui chegamos ao segundo argumento, o mais instigante dos três. Segundo Gancia, Boris falou aquela frase “para a sua equipe, não para o público nem em público”. Bom, isso é bem óbvio e não muda nada. Gancia, como eu disse, não é boba. Então desenvolve melhor o argumento: o que estava acontecendo ali não era uma mera esculhambação gratuita de Casoy aos garis, mas sim uma crítica a escolha dos personagens da reportagem por parte de sua equipe de jornalismo. Ela ressalta a dificuldade de se fechar um jornal, e nos conta que são comuns certas críticas e avaliações no decorrer do programa.

Ok, ela me convence perfeitamente nesse ponto. Casoy não é um gagá que fica xingando pessoas em off no seu jornal. Mas e daí? Que raios isso muda na história? O criticável não é Casoy dizer o que disse em público nem sem uma motivação lógica. O criticável é Casoy ter dito o que disse – fosse na festa de natal da empresa, fosse na cama com a esposa, fosse sozinho no banho.

Gancia arremata esse argumento com uma conclusão peremptória: “Isso é da natureza do nosso trabalho e não tem nada a ver com preconceito”. Por deus, Bárbara, tem e muito! A crítica e avaliação do andamento do jornal em off pode muito bem ser algo comum da natureza do trabalho de vocês, mas isso não impede que tenha TUDO a ver com preconceito.

Afinal de contas, a pergunta relevante a que chegamos com essa argumentação dela é a seguinte: por que Boris Casoy criticou a escolha dos garis pela reportagem? O próprio Boris nos responde: eles são “o mais baixo da escala do trabalho”. Ou seja, Boris Casoy acredita numa hierarquia dos trabalhos, e os lixeiros são a escória dessa hierarquia, os párias do mundo do trabalho.

Bem, amigos, se isso não tem nada a ver com preconceito de classe eu não faço idéia do que possa ser preconceito de classe.

Curiosamente, essa defesa de Gancia na verdade “incrimina” ainda mais Casoy. Se foi um comentário crítico às opções de sua equipe, a frase de Casoy não foi, portanto, uma mera piada politicamente incorreta – como eu cheguei a ouvir de algumas pessoas tentando relativizar a seriedade do acontecimento.

Para dizer mais, tenho a impressão que a própria Bárbara não se convence. Pelo menos ela não se dá por satisfeita e lança um terceiro argumento pró-Casoy: “Conheço Boris Casoy (...) e tenho grande respeito por ele. Sei bem do seu caráter e da sua retidão”. Para exemplificar esse caráter e retidão ela nos conta de um almoço em que ela se colocou a falar mal das pessoas e Casoy ficou constrangido. “O Boris é do tipo que se incomoda com essas leviandades, 100% não frívolo e absolutamente dedicado ao seu trabalho”.

Eu continuo acreditando em tudo o que a Barbara Gancia está escrevendo e continuo não vendo lógica em achar que Casoy não foi estupidamente preconceituoso. Aqui o erro me parece querer igualar retidão e seriedade no trabalho, ou mesmo na vida pessoal, com ausência de preconceitos. Desde quando o cara precisa ser vagabundo e malandro pra ser preconceituoso?

Dito tudo isso concluo: Barbara Gancia tentou ajudar o colega e nada conseguiu (ou talvez tenha até piorado a situação).

PS: Sobre o caso Casoy em si, vale a pena ler o texto do amigo Adolpho no blog Crítica Cotidiana.