Mostrando postagens com marcador Educativas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Educativas. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Alunos de Pós-Graduação repudiam a (falta de) política de incentivo à pesquisa tucana

Acabo de receber por e-mail e subscrevi (pra quem chegou aqui sem me conhecer e não reparou no "perfil"ao lado, sou aluno de Mestrado em História na UFF), apesar de achar que faltou uma crítica maior à política petista do que um simples "claro que muitos avanços ainda se fazem sentir..." genérico. Mas na lógica do menos pior que deve pautar um segundo turno, fico feliz que exista uma iniciativa destas. Mostra, mais uma vez, que a "comunidade científica" repudia enfaticamente a possibilidade da volta do PSDB ao poder.




CARTA DOS PÓS-GRADUANDOS
Pós-graduandos das diversas universidades e institutos de pesquisa do Brasil, vimos a público testemunhar o novo momento em que vive a educação, ciência e tecnologia em nosso país e a necessidade de se manter esse rumo de valorização permanente do conhecimento e inovação, inaugurado no governo Lula/Dilma Rousseff.

Importante, seguindo a tradição científica, fazer uma comparação, baseada em dados reais, sobre os últimos governos no que tange à política científica.

Fomos testemunhas de um período de oito anos de governo Fernando Henrique Cardoso e José Serra em que não houve sequer um reajuste nas bolsas de pós-graduação e de Iniciação Científica. Nenhuma universidade foi criada e tampouco houve concursos para professores efetivos. O diálogo entre o Ministério da Educação e da Ciência e Tecnologia, bem como suas agências (Capes e CNPq) com os pós-graduandos e suas entidades representativas, inexistiu. O Plano Nacional de Pós-graduação (PNPG) foi abandonado. O investimento em C&T jamais superou a taxa de 1% do Produto Interno Bruto (PIB). A taxa de bancada e o auxílio-tese foram extintos. Professores eram desvalorizados e greves eram sentidas todos os anos. Os reflexos desse descaso com a C&T são perceptíveis até os dias atuais.

Já nos oito anos de Governo Lula e Dilma Rousseff, presenciamos três reajustes de bolsas de pós-graduação e Iniciação Científica. A bolsa de Iniciação Cientifica Júnior (voltada a estudantes do ensino médio) foi implantada. Criou-se 14 novas universidades e houve expansão de diversos campi (além da efetivação dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia) com milhares de vagas para professores e pesquisadores sendo abertas cotidianamente. O diálogo democrático foi retomado. Já estamos na consecução do segundo Plano Nacional de Pós-graduação sob os auspícios do governo Lula. O Investimento em C&T já está na ordem dos 2% do PIB. A taxa de bancada, por parte do CNPq, foi retomada e as mulheres pós-graduandas foram beneficiadas com a prorrogação das bolsas em caso de gravidez (“licença-maternidade”). Professores estão sendo mais valorizados e como reflexo vivemos um período de maior tranquilidade nas universidades e institutos de pesquisa federais.

Claro que muitos avanços ainda se fazem sentir. Mas foi notório, incisivo e contundente a ampliação nos investimentos em ciência e tecnologia nacional no governo Lula.

Em defesa da continuidade destas políticas e em repúdio ao receituário neoliberal passado, reafirmamos nosso compromisso EM DEFESA DA CIÊNCIA NACIONAL, defendendo que o Brasil siga no rumo das mudanças, com Dilma Rousseff presidente da Nação.

São Paulo, 13 de outubro de 2010

sábado, 16 de outubro de 2010

Resposta a um amigo ou "Quem defende educação pública de qualidade não vota MESMO em José Serra"

Eu coloquei um link pro post abaixo no Orkut, no que fui respondido com um scrap de um amigo simplesmente com um link: http://www.serra45.com.br/proposta/educacao
Tá certo, o jogo é esse, vamos lá. Minha resposta abaixo. Só peço desculpas pelo tamanho, mas meu reginaduartismo com uma possível vitória do Serra é muito grande. To levando isso aqui muito a sério.

Rapaz, as propostas em si já são tão simplórias que é até difícil responder. Algumas são meramente retóricas, sem profundidade nenhuma de conteúdo. As que têm conteúdo, são falhas em alguma razão (que eu vou tentar apontar). Mas o mais importante é o seguinte: Serra e o PSDB não chegaram de Marte ontem. Temos que analisar o que eles fizeram enquanto governo, e não propostas genéricas (até por que essas propostas sempre são genéricas mesmo e por que listinha de proposta bonita é fácil fazer, até o Tiririca tinha a dele)

Mas pra dizer que eu não fugi da raia, vamos lá, uma por uma. Algumas são tão sem conteúdo que vai ser difícil falar alguma coisa, outras permitem mostrar bem as incoerências da candidatura José Serra. É isso que eu vou tentar fazer, analisar a proposta pelo que ela é, pelo que ela implica e, a partir disso, pelas chances de elas serem de fato implementadas (esse último, claro, na base do palpite). No fim das contas, você vai ver que, mais importante do que cotejar as propostas do Serra em si, o que eu quero é desmistificar a figura do Serra e te mostrar o que significa uma vitória do PSDB para a educação pública (em especial, para o ensino superior).

As propostas

Criar um milhão de vagas de ensino técnico profissionalizante, por meio da abertura de novas ETECS e FATECS (Escolas Públicas de Ensino Técnico de Nível Médio e Superior) de do PROTEC, programa de Bolsas de Estudo em instituições conveniadas de qualidade comprovada.

O simbolismo dessa proposta sobre Escolas Técnicas encabeçar a lista é imenso. Sabe por quê? Por que ele tá tomando pra si uma bandeira do governo Lula contra o governo FHC. Isso mesmo, o que Serra defende é a política do Lula contra a política do seu partido quando foi governo. FHC desestimulou a expansão de escolas técnicas federais. Ele criou uma lei que só permitia a criação de novas escolas técnicas em parcerias com outros governos ou com iniciativa privada, sendo que os parceiros seriam os responsáveis pela manutenção (isto é, escolas técnicas federais de fato, neca de piriquitiba). Fez isso, imagino, para cortar gastos. Eu vou voltar a este ponto diversas vezes aqui: a ênfase tucana é sempre em cortar gastos, então eu sempre desconfio de promessas tucanas que impliquem em aumento de gastos.

Meu palpite: pode até cumprir essa promessa, mas não muda em nada a política do governo atual. E (isso é importante) eu confio muito mais na manutenção da política atual pela candidata do governo atual do que pelo candidato da oposição. Não só pela lógica óbvia da coisa, mas pelas características dos partidos: PT defende ampliação de investimentos, PSBD defende redução de gastos (o tal ajuste fiscal, que eles adoram defender como política pra tudo). Você pode querer o PSDB de volta por achar que a política econômica do PT é temerária, ou que significa chance quase zero de redução de impostos. Esse era o discurso do PSDB até a crise do ano passado (quando o PT provou na prática que seu remédio para crises é mais eficiente do que o do PSDB na era FHC – e aí eles desistiram de fazer comparações entre políticas econômicas). Votar no PSDB acreditando que eles vão ampliar investimentos é arriscado, pra dizer o mínimo.

Distribuir cem milhões de livros de literatura brasileira por ano para professores e alunos da rede pública a partir do 5º ano do Ensino Fundamental

Coisa mais meiga da titia
Isso aqui é a CARA do PSDB e de José Serra. Nessa promessa eu acredito fácil, eles vão fazer com certeza. Sabe por quê? Por que o PSDB e Serra adoram gastar os tubos com editoras, especialmente as amigas donas de revistas semanais importantes  – e se puder ser sem licitação, melhor ainda. Ou você acha que a Veja tá há dois meses dando capa toda semana contra a Dilma por que eles têm implicanciazinha com ela?


Só pra constar, o projeto em si é importante. Estimular a leitura é sempre bom. Mas é importante ressaltar esse ponto: gastar dinheiro com reajuste de salários, com a valorização do professor não vale a pena pra eles, por que nós, professores, não fazemos doações milionárias na hora das eleições e nem fazemos campanha diária contra o PT. Ou seja, essa eles cumprem!!





Garantir dois professores em sala de aula nas primeiras séries do Ensino Fundamental, para que TODAS as crianças de até oito anos sejam alfabetizadas. Enquanto a professora titular passa a lição, a auxiliar ajuda a criança que está com dificuldade de aprender

Como assim? Ele vai botar duas professoras nos colégios federais? Beleza, as 50 escolas federais q devem ter alfabetização no país vão ficar ainda melhores... Por que esse é o ponto! Governo Federal não tem responsabilidade direta sobre a gestão da educação básica (com a exceção da meia dúzia de colégios federais), é responsável pelo repasse e controle da verba via FUNDEB (o que já é importante pra caramba, claro). E o cara me vem com um papo de como se ele fosse candidato a prefeito...

Imagino, então, que a idéia seja obrigar todos os Estados e Municípios a implementarem as duas professoras. É isso? A idéia me parece, em tese, boa. Quanto mais professor melhor. Não sei se dois em sala de aula seja o caso, talvez fosse melhor um professor com uma turma pequena, de metade dos alunos... mas isso não importa, o ponto pra mim é outro: Com que dinheiro? Tem muita turma de alfabetização nesse país, cara, esse programa seria caríssimo só em dobrar o número de professores. Mas não é só isso, dobrar a demanda de professores de alfabetização possivelmente aumentaria a carência de professores (eu não tenho dados, falo no chute lógico), que só pode ser resolvida com aumentos substanciais de salários, para atrair mais gente pra carreira docente.

Ou seja, essa é uma proposta que gera muitos gastos. Isso não é ruim, muito pelo contrário. Aumentar investimentos na educação é tudo que eu defendo. Agora, é o que o PSDB defende? Sem querer ser repetitivo, mas isso é fundamental: todos sabem que o PSDB é a favor do ajuste fiscal, responsabilidade fiscal é a principal bandeira dos caras... nada contra, isso teve sua importância na estabilização econômica na década de 90 e coisa e tal e se eles querem continuar defendendo isso, beleza, pluralidade de idéias é a graça da democracia. Mas acreditar que eles vão gastar os tubos com educação é difícil (mais difícil até do q acreditar no mínimo de 600 reais e na ampliação do bolsa-família, promessas do Serra que vão contra a prática histórica do PSDB)*. É difícil por que vai contra tudo que o PSDB se tornou em sua essência nos últimos 16 anos, um partido que defende a redução de gastos do Estado.

Meu palpite? Eles vão começar a implementar em alguns lugares, como projeto-piloto e nunca vão concluir...

Intra Scriptum: Depois de ter escrito tudo isso acima, acabei achando uma explicação sobre o projeto das “duas professoras” do Serra: na verdade, a segunda professora não é professora! É uma estagiária... Por um lado, torna a coisa mais crível. Por outro, mostra como a campanha do Serra é mentirosa (não tem outra palavra, ele fala duas professoras, e não contratação de estagiárias para ajudar as professoras...). Pensando bem, isso mostra bem o que o PSDB pensa de uma política de (des)valorização dos professores. Quando eles aparecem com uma proposta que aparenta incidir em uma valorização dos professores, na verdade ela é uma política de desvalorização do professor, de sua substituição por uma mão-de-obra mais barata. Essa não é a única proposta que implica nisso, como veremos mais abaixo.

Expandir o número de creches no Brasil todo
e
Garantir o acesso de pessoas com deficiência à escolarização

Vou falar dessas duas aqui juntas por que a análise é a mesma: ambas são muito importantes, mas são apresentadas de maneira muito genérica. Minha impressão é que são meramente retóricas, por que o Serra é igual candidato a prefeito, adora falar números, fazer promessas de que vai fazer  597.432 qualquer coisa que seja, e se ele não fala aqui dessa maneira eu fico com um pé atrás. Até porque, como eu já disse, qualquer promessa tucana que implique em aumento de gastos, eu só acredito vendo.

Garantir que todas as escolas tenham computadores conectados à internet

Também importante, mas isso já é uma política do governo atual. Como eu já disse, pra dar continuidade a políticas atuais, eu confio mais na candidata do governo do que no candidato da oposição...

Implantar programa de estágio para que alunos do ensino médio sejam monitores de inclusão digital nas escolas em que estudam

Isso pode ser bom, mas também pode descambar pra algo que é a cara do PSDB. Alunos auxiliando professores como monitores, recebendo uma bolsa razoável pra isso é bom. Alunos servindo de mão-de-obra barata para fazer um serviço que deveria ser feito por um professor bem pago é a cara do PSDB. Por isso eu acredito na implementação dessa proposta: ela corta gastos – e isso é o que o PSDB gosta. Nada de aumentar o número de professores de informática, vamos usar mão-de-obra barata pra fazer o serviço. Essa eles cumprem!!


ATENÇÃO: Até aqui só se falou em educação básica e ensino técnico, na qual o governo federal tem o papel de ser parceiro de Estados e Municípios. Agora vem o ponto fundamental, por que é de responsabilidade direta do governo federal e implica na possibilidade ou não do desenvolvimento do país: a política universitária.


Aperfeiçoar a avaliação de universidades que recebem recursos do PROUNI

Eu sou a favor de medidas mais radicais com relação ao ProUni (acho que só universidade ligadas à Fundações, isto é, sem fins lucrativos, poderiam receber os recursos). Mas, nisso me parece que os dois candidatos são iguais. Apesar de muitos militantes petistas afirmarem que o Serra poderia acabar com o ProUni, eu não acho que isso seja uma possibilidade. Dar dinheiro público pra universidades privadas não me parece ser problema pros tucanos, o problema é na hora de investir nas universidades públicas... e agora é que são elas:

Garantir às Universidades Federais condições adequadas de funcionamento para o ensino, pesquisa e extensão
e
Ampliar o investimento em pesquisa científica

Muito bom! Eu que tenho pretensão de seguir a carreira acadêmica não me contenho de felicidade! Acho que vou votar no Serra!!! Mas peraí... “garantir condições...”, “ampliar investimento...”  O que isso significa? Significa expandir as universidades públicas? Significa contratação de mais professores para as universidades federais? Significa aumentar as verbas dos órgãos de fomento à pesquisa, tipo Capes e CNPq? Pra mim, investimento em pesquisa científica é isso.

E, camarada, é muito difícil acreditar que um governo do PSDB, que um governo de José Serra fará isso. Por quê? Porque eles fizeram exatamente o oposto quando governaram o país, porque Serra fez exatamente o contrário quando foi governador de São Paulo. Repare que estas duas últimas são as propostas mais genéricas de todas da lista. Ele não dá nem dica de como vai garantir às condições adequadas às universidades nem como vai ampliar o investimento em pesquisa. Não fala nada, não promete a construção de um campus, não fala em nenhuma política concreta... sabe por que? Por que ele não tem proposta de política universitária. Isso mesmo, no ponto mais importante do setor de educação para o governo federal, Serra não tem projeto. Ou pior, tem: sucateamento das universidades públicas e proliferação das faculdades-McDonalds, tipo Estácio de Sá. Duvida? Pois vejamos.

O que o PSDB fez na presidência pelas universidades? Não criou uma única nova universidade, não expandiu significativamente o número de vagas, diminuiu consideravelmente o corpo docente, reduzindo o número de novos concursos e levando muitos professores no auge de suas carreiras a pedirem aposentadoria pelo medo das mudanças nas regras da previdência. A ausência de novos concursos é muito importante: sem vagas para dar aulas no Brasil, os doutores formados (ou os brasileiros que iam se doutorar lá fora) tinham que buscar mercado de trabalho no exterior. Já ouviu falar em fuga de cérebros? Foi o que a política universitária de corte de gastos do PSDB causou ao Brasil enquanto esteve a frente do sistema universitário federal. A estrutura física das universidades ficou sucateada, a ponto de a UFRJ ter tido sua luz cortada por falta de pagamento!!

E o que Serra fez pelas universidades paulistas? Restringiu a autonomia das universidades estaduais e tratou as manifestações contra isso na base da porrada (mandou a polícia invadir a USP, coisa que nem a ditadura militar tinha feito!). O salário dos professores da rede estadual paulista, que historicamente foi superior ao da rede federal hoje é inferior (ver o texto abaixo – no Rio aconteceu a mesma coisa graças as seguidas gestões garotinhos e Sérgio Cabral).
Política universitária mais marcante de Serra no governo de SP


Eu tenho um milhão de críticas ao governo Lula, inclusive no que tange à sua política universitária. Mas a comparação entre o governo PSDB e o governo PT neste ponto é massacrante. A volta do PSDB é um risco muito sério às universidades federais. E isso não é só pelo histórico do PSDB, mas pelo histórico do próprio Serra. Não é a toa que a comunidade universitária tá se mobilizando neste segundo turno para tentar mostrar isso, não é a toa que o manifesto que eu postei abaixo já foi subscrito por muitos professores.


UPDATE: Achei que ficou faltando deixar mais claro o nível abissal de diferença entre o governo PSDB e o governo PT no que diz respeito à política universitária. Pra fazer essa conclusão vou utilizar um trecho de um bom texto pró-Dilma que toca nesse ponto nos seguintes termos:


Não foi apenas no plano econômico que a gestão Lula foi primorosa. Há que se destacar a revitalização do sistema universitário público. Comparar a gestão Lula com Paulo Renato é como comparar o Barcelona ao Madureira. Foi nos anos FHC que o ensino superior privado conheceu fulgurante expansão – na maior parte das vezes, sem a contrapartida da qualidade –, rifando vagas universitárias a megagrupos empresariais. Ao mesmo tempo, as universidades federais entraram em processo de sucateamento: Paulo Renato cortou verbas, restringiu concursos para professores e funcionários, priorizou a expansão do ensino privado, não promoveu uma política de assistência estudantil. Fiz o curso médico na UFMG durante os anos FHC. O descaso governamental provocava greves recorrentes (a de 1998 foi marcante) e provocou inclusive o fechamento do Hospital das Clínicas da UFMG, pelo simples motivo de que a verba federal não era repassada: centenas e centenas de alunos, além de milhares de pacientes carentes, sofreram com o fechamento do hospital. Hoje, o campus da UFMG tem outra cara: prédios novos e modernos foram inaugurados (Economia, Farmácia, Odontologia, Engenharia).

A Cynthia Semíramis concorda comigo. Lula investiu no ensino superior: criou 14 universidades federais e outras dezenas e dezenas de escolas técnicas, muitas delas em regiões menos desenvolvidas do país. Foi a política de Lula que permitiu a criação, por exemplo, do Instituto de Neurociências de Natal, que já está aí, repatriando pesquisadores e fazendo pesquisa em alto nível. Cargos docentes foram criados e a carreira universitária foi valorizada, em flagrante contraste com a ativa promoção da penúria que marcou a gestão Paulo Renato. Tudo isso propiciou que os mestres e doutores formados no Brasil ocupassem cargos na universidade brasileira, evitando o brain drain que por tantos anos sangrou a academia brasileira. 
O salto na pesquisa brasileira desde a eleição de Lula é bastante expressivo. Em 2003, os investimentos em ciência e tecnologia foram de 21,4 bilhões de reais; em 2008, já atingiam R$ 43,1 bilhões. Paralelamente, houve notável aumento da produtividade científica brasileira: as publicações em peer-review journals saltaram de 14.237 em 2003 para 30.415 em 2008. Subimos da 17ª posição no ranking da SCImago, em 2000, para a 14ª, em 2008. Passamos países com maior tradição de pesquisa, como a Suíça e a Rússia. A política de pesquisa do Governo Lula foi elogiada inclusive pela Nature, uma das revistas científicas mais importantes do mundo (aí, Tio Rei, coloque mais essa na lista do jornalismo chapa-branca). Eu não voto em José Serra porque não quero que a universidade e a pesquisa brasileiras sejam sucateadas novamente. Não merecemos outro Paulo Renato.


Por tudo isso eu volto a repetir convicto: QUEM DEFENDE EDUCAÇÃO PÚBLICA DE QUALIDADE, NÃO VOTA MESMO EM JOSÉ SERRA.

* Pra não sair do foco do debate, deixo aqui meu p.s. sobre isso: Essas promessas (mínimo de 600 reais, dobrar o bolsa-família...) são claramente promessas de quem pensa que vai perder a eleição. Num dado momento a campanha do Serra tinha como maior meta perder de pouco, e começou a lançar mão dessas promessas eleitoreiras... Aí veio o spam religioso e levou a eleição pro segundo turno e surgiu a chance deles ganharem.
A dúvida que fica é: eles vão cumprir? Eu acho que vão dar uma maquiada pra cumprir pela metade parecendo que cumpriram ou fazer um jogo de cena pra parecer que quiseram cumprir “mas, poxa, não deu, fica pro ano que vem...”. Tem gente que acha que o Serra vai ter que cumprir, por que senão vai dar merda. E cumprindo, vai dar uma merda maior ainda.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Quem defende educação pública de qualidade não vota em José Serra

Eu tava pensando em escrever um texto sobre o risco para a educação pública que significa a possível eleição de José Serra quando encontrei o texto que se segue no blog do Amiano. Foi escrito pelo professor de Filosofia da USP Vladimir Safatle e vem sendo abaixo-assinado por professores universitários de todo o país.



Manifesto em Defesa da Educação Pública 
Nós, professores universitários, consideramos um retrocesso as propostas e os métodos políticos da candidatura Serra. Seu histórico como governante preocupa todos que acreditam que os rumos do sistema educacional e a defesa de princípios democráticos são vitais ao futuro do país.
Sob seu governo, a Universidade de São Paulo foi invadida por policiais armados com metralhadoras, atirando bombas de gás lacrimogêneo. Em seu primeiro ato como governador, assinou decretos que revogavam a relativa autonomia financeira e administrativa das Universidades estaduais paulistas. Os salários dos professores da USP, Unicamp e Unesp vêm sendo sistematicamente achatados, mesmo com os recordes na arrecadação de impostos. Numa inversão da situação vigente nas últimas décadas, eles se encontram hoje em patamares menores que a remuneração dos docentes das Universidades federais.
Esse “choque de gestão” é ainda mais drástico no âmbito do ensino fundamental e médio, convergindo para uma política sistemática de sucateamento da rede pública. São Paulo foi o único Estado que não apresentou, desde 2007, crescimento no exame do Ideb, índice que avalia o aprendizado desses dois níveis educacionais.
Os salários da rede pública no Estado mais rico da federação são menores que os de Tocantins, Roraima, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Espírito Santo, Acre, entre outros. Somada aos contratos precários e às condições aviltantes de trabalho, a baixa remuneração tende a expelir desse sistema educacional os professores mais qualificados. Diante das reivindicações por melhores condições de trabalho, Serra costuma afirmar que não passam de manifestação de interesses corporativos e sindicais, de “tró-ló-ló” de grupos políticos que querem desestabilizá-lo. Assim, além de evitar a discussão acerca do conteúdo das reivindicações, desqualifica movimentos organizados da sociedade civil, quando não os recebe com cassetetes.
Serra escolheu como Secretário da Educação Paulo Renato, ministro nos oito anos do governo FHC. Neste período, nenhuma Escola Técnica Federal foi construída e as existentes arruinaram-se. As universidades públicas federais foram sucateadas ao ponto em que faltou dinheiro até mesmo para pagar as contas de luz, como foi o caso na UFRJ. A proibição de novas contratações gerou um déficit de 7.000 professores. Em contrapartida, sua gestão incentivou a proliferação sem critérios de universidades privadas. Já na Secretaria da Educação de São Paulo, Paulo Renato transferiu, via terceirização, para grandes empresas educacionais privadas a organização dos currículos escolares, o fornecimento de material didático e a formação continuada de professores. O Brasil não pode correr o risco de ter seu sistema educacional dirigido por interesses econômicos privados.  
No comando do governo federal, o PSDB inaugurou o cargo de “engavetador geral da república”. Em São Paulo, nos últimos anos, barrou mais de setenta pedidos de CPIs, abafando casos notórios de corrupção que estão sendo julgados em tribunais internacionais. Seu atual candidato à presidência não hesita em tentar explicitamente interferir no sistema judiciário e em controlar a produção da informação. Destrata jornalistas que lhe dirigem perguntas embaraçosas, enquanto a TV Cultura demite profissionais que realizaram reportagem sobre pedágios.
Sua campanha promove uma deseducação política ao imitar práticas da extrema direita norte-americana em que uma orquestração de boatos dissemina a difamação manipulando dogmas religiosos. A celebração bonapartista de sua pessoa, em detrimento das forças políticas, só encontram paralelo na campanha de 1989, de Fernando Collor.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A importância do ensino de História

Eu não passei os últimos meses sem postar por que estava preparando um post sensacional sobre esse tema do título aí em cima. Eu passei os últimos meses sem postar por que a vida tá loka, mano. To trabalhando em dois colégios (um estadual, um particular) e fazendo mestrado - e só posso falar isso abertamente assim, sem medo de ser feliz, graça a isso aqui. Dou aula pra todas os anos possíveis - sexto ao nono do ensino fundamental, primeiro a terceiro do ensino médio e segundo e terceiro ano do EJA (faltam muitos anos do EJA nessa conta, eu sei, mas já é bastante coisa) - o que significa que eu tenho que preparar um milhão de aula a cada semana e isso toma um tempo absurdo. Desta forma, esse blog virou a última das minhas prioridades - na verdade, uma não prioridade dentro dos "projetos" que levo a frente esse ano.


Isso tudo pra dizer o seguinte: apesar de tratar neste post sobre algo que eu deveria saber bastante, este também vai ser um teste de hipótese chulé sem grandes aprofundamentos - com a única vantagem de partir não só de leitura e observação alheia, mas de minha própria experiência profissional.


Há uns meses atrás eu tava dando aula sobre Egito Antigo para minha turma de sexto ano (antiga quinta série). No power point que preparei, ilustrei a parte sobre religião egípcia com algumas imagens de templos e representações de divindades egípcias, entre as quais estava essa imagem do deus Hórus:

Deus Hórus
Enquanto eu falava da religiosidade egípcia, vi um dos alunos comentando com outro: "Esses deuses não existem não, eles são de mentira!". Ouvindo isso eu falei "olha bem, nós realmente não acreditamos nesses deuses, então para nós eles são de mentira, porém, se você conversasse com um egípcio desta época, ele diria que o deus que nossa sociedade acredita hoje em dia é que é mentira, e que os deuses deles eram verdadeiros".


A fala desse aluno tem dois aspectos interessantes. Primeiro, quando lidamos com crianças pequenas, como na quinta série, a distinção entre as noções de real e imaginário está em um estágio bastante inicial (alguém que prestou mais atenção nas aulas de psicologia da educação me corrija se eu estiver errado) e eles tem sérias dúvidas quanto a realidade de coisas que a sociedade de maneira geral lida como mitos. É claro que essa discussão é complexa, por que extrapola a educação infantil e adentra na psicologia humana de maneira geral, e nas diferentes formas que cada sociedade lida com a distinção mitológico/real, mas o ponto que destaco é mais simples e exemplifico com outro comentário de um aluno dessa turma de quinta série: ao conversarmos sobre mitologia grega, o aluno me perguntou se aqueles deuses e heróis existiram de verdade; eu expliquei que os gregos acreditavam que sim, mas que eram apenas mitos (relativistas culturais, me apedrejem!). O aluno, mesmo criado em uma sociedade cristã, que vê a mitologia grega como mera coletânea de fábulas, tinha dúvidas sérias quanto ao estatuto do real garantido a estes deuses e heróis.


O segundo aspecto é mais problemático ainda: tem a ver com a religiosidade infantil. Nessa idade, as crianças ainda estão num momento de aprendizado das crenças, e algumas famílias levam esse processo bastante a sério e de maneira muitas vezes bastante proselitista. Isso, obviamente, se reflete no discurso das crianças. Esse mesmo aluno que denunciou a falsidade dos deuses egípcios ficou estupefato comigo quando eu tentava explicar para os alunos que a associação entre Hades e o Diabo feito em nossa sociedade é equivocada e me perguntou em tom claramente assustado/indignado: "você tá dizendo que o Inferno não existe?" - ao que eu respondi ensaboadamente "estou dizendo que os gregos não tinham essa idéia de inferno que nós temos".


As duas intervenções do aluno são bastante coerentes e fundamentam-se claramente em um repúdio direto a religiosidades que não são cristãs. E isto é um problema pra mim: crianças aprendendo a repudiar uma religião que não é a deles tem maiores chances de se tornar intolerantes - e o ensino de História pode justamente combater essa intolerância.


O objetivo da minha resposta, apontando que os egípcios achariam que ele acredita numa mentira da mesma maneira que ele acha que os egípcios acreditavam em uma mentira, era bem simples: estimular a percepção entre os alunos de que existem diversas religiões na história e que elas não podem ser hierarquizadas. Estudar a religião egípcia pode parecer, para a crescente percepção utilitarista do ensino, descabido - afinal de contas, "para que eu vou usar esse conhecimento?" ou "quando na minha vida isso vai ser útil pra mim?". Pois aqui está humildimente a minha resposta: "pra aprender a não ser intolerante" e "a todo instante".


Essa história ainda traz uma outra discussão importante: a relação com os pais. Os pais desse menino certamente não ficarão nada felizes se seu filho lhes disser que o professor de História anda colocando em questionamento a religião cristã, e poderão vir reclamar com a direção ou, na melhor das hipóteses, vir falar comigo na próxima reunião de pais. Em um colégio particular com donos católicos, a chance de eu ficar em maus lençóis é grande, mas a saída me parece ser simples: tentar ensinar a esses pais o mesmo que to tentando ensinar ao filho deles, a importância de se respeitar a religião alheia - apesar de saber das parcas chances de sucesso desta empreitada.